OS SONHOS DE PANDORA

Julho 9, 2008

Na sua infância

Pandora decorou seu quarto com sonhos

E lá eles permaneciam

Reluzindo a promessa de um grandioso amanhã!

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Enfim o amanhã chegou com os ponteiros do relógio

E junto com ele a certeza de que promessas

Por mais sinceras que pareçam

Nascem para serem quebradas

.

Novas responsabilidades nasciam

Obrigações sociais

Indiferentes as suas dores, desejos e anseios

Como se o mundo escolhesse seu ‘eu’ numa vitrine

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Os livros chegaram

Centenas e mais centenas de palavras

De um tecnicismo voltado a formar

Não mais que uma máquina de lucro

.

Os sonhos deram lugar aos livros

Já não vagavam pelo quarto

Foram para o armário

.

Depois deram lugar às contas

Já não repousavam no armário

Foram para a gaveta

.

Foi então que deram lugar as coisas de outra pessoa

Sendo arrancados da pequena gaveta

E enfim, encaixotados!

.

Assim Pandora levou suas horas

Seus dias

Sua vida

Até a chegada daquele conhecido momento

Do famoso instante em que nos pomos na balança

E tentamos entender

Pra onde a covardia nos levou

.

Desesperada, abriu caixas e mais caixas

Queria seus sonhos de volta

Queria a promessa daquilo que era pra ser

E tão pouco foi

.

A cada pacote errado rasgado

Eis que surgia a frustação

.

E quanto mais vã parecia a procura

Maior era o remorso do passado

.

O medo também surgiu

Pelo jeito, estaria condenada ao seu hoje

- Ah! Mais uma caixa vazia!

Até o fim

.

Aos poucos Pandora fora encontrando,

Fora libertando sentimentos desesperadores

.

Quando encontrou o papelão que encarcerava seus sonhos

Já era tarde

Eles já tinham se moldado à minúscula caixa

Não sabiam mais voar.


A IMORALIDADE EM SER HUMANO

Junho 21, 2008

O que seria a moral, senão uma velha virgem, asmática e senil, tomada pela frustração plena de não ter saboreado a vida? Uma anciã de terço nas mãos, bradando termos sacros, enquanto tem sua mente consumida pelos deleites pecaminosos mais depravados? Uma forma de castração humana, na qual, para que vires um sociável “cordeiro”, és forçado a travar uma épica batalha com o lobo que se revira dentro de suas vísceras? Ah, famigerados valores! Sanguessugas da potência humana e gestantes de quadrúpedes sedentos pelo “pasto prometido”. Aceitamos o cárcere sem questionarmos quais os punhos que redigiram as leis que nos domam, ferem e diminuem… sem nos opormos às verdades pré-fabricadas que nos obrigam a consumir… sem deixarmos que a existência exploda com toda sua intensidade em nosso peito. Nossos verbos conjugam-se no futuro, pois não nos cabe degustar o presente, nem sentir os prazeres contidos no hoje, sob pena de estarmos sendo levianos e insensatos. Presas fáceis do implacável niilismo, caminhamos vacilantes pela trilha do “dever ser”, construída por vícios e pretensões sociais, sem galgar um passo sequer no caminho do “querer ser”… até porque tocar o solo das vontades e dos próprios juízos seria pretender ser demasiadamente humano. Como poderiam os deuses e anjos, sem sentirem o peso da carne, o aroma da matéria e a força do sentir, julgar nossos atos? Como poderia uma sociedade erigida sobre aparências e hipocrisia, deter a pretensão de inquisitorialmente dispor o moral, o certo, o verdadeiro e o inquestionável? E assim, acorrentados a milênios de moralidade irracional e pútrida, temos dois caminhamos a percorrer: o da decomposição do “eu”, sendo encoleirados pela moral e agindo como mais uma peça da engrenagem social de um mundo em que ser humano é imoral; ou o da libertinagem, sendo coroados como senhores de nosso destino, defensores de nossos ideais, apreciadores da esquecida e subjugada vida. Indubitável é a escolha.

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“Bem e mal são preconceitos de deus” (Friedrich Nietzsche)

“Estou farto do lirismo comedido / Do lirismo funcionário público [...]” (Manuel Bandeira)